quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Por que opostas, atraem-se quando dispostas, as cores...*

Não sei começar pelo começo. Adio sempre a decisão do relacionamento sério com o papel. Assim, o memorial descritivo que eu quis fazer sobre as cores pode não acontecer antes do espaço desse retângulo branco e fino acabar. A chama incipiente para a escrita deve vir como um chiste, uma anedota. Eu devo ironizar os fatos ou torno a vida em letras uma tristeza. Então começo.

Também não compreendo: Eram arabescos sob minhas mãos apertadas, os meus olhos voltando sempre para a fuga, os meus beijos mudos. Eu não queria ser abraçada, mas também não queria dormir sozinha...

Começo?!

Era o verde... Como cheguei, ali, ai, Deusa! Quando eu cheguei? Porque a cor que eu era estava repleta de pragas, e eu sei lá! Eram todas as pragas. Desde o ódio ao tédio.

Ele era o verde! A natureza, a primavera, a juventude, a boa sorte e todas as coisas que trazem desenvolvimento e esperança. Sabíamos que eu era a cor oposta ou o vermelho ao cipreste era apenas atrativo, inebriante?

Também a mim, que devia ser paixão, força, energia, amor, liderança, masculinidade, perigo, fogo, raiva e revolução, chegava a agonia de não entender a outra cor. Eu era o vermelho. Vocês sabem? A cor oposta ao verde...

Aquilo devia ser agonia. O que eu sentia não era exatamente o que as cores opostas, quando misturadas, acometem. Com o Preto e Branco vocês podem compreender melhor. Desponta o Sol sob a beleza de um casal contrário. Na paleta real das cores, primárias e secundárias quando opostas formam Cinza. A cor mais neutra e sem graça que eu já conheci!

E eu não sei por que pecados pago agora nesta noite que mais parece eterna. É cinza o céu. É cinza o meu peito. É cinza a cor da minha alma. Mas é verde todo o meu pensamento.

Pensei esta manhã em pintar de azul os cabelos de uma das cinco mulheres que eu criei sob o espectro de mim. Mas quando dei por mim, todo o resto da tela estava pintado de vermelho, verde e cinza. E cinza não porque eu quis, mas porque as cores opostas quando se misturam caem na mesmice da cor mais neutra e sem graça que eu já vi.

E eu era toda a cor vermelho. Mas quando chegava o verde com o panteísmo e a complexidade, as chamas da minha combustão espontânea prostrada, era vencida pelas desastradas florestas mágicas da tonalidade formada por duas cores primárias como eu. E que verde era aquele? Eu saberia designar para os outros uma infinidade de variantes de musgo, lima, mar, broto, jade, esmeralda, menta, grama, oliva e outras, muitas, muitas outras. Mas aquele eu nunca vi. Era tal a força mística daquela percepção visual quase inexorável de excitação da minha curiosidade.

Eu saberia bem dizer que verde é cor-luz primária ou uma cor-pigmento secundária composta pelo ciano e amarelo. Mas não. Naquelas horas preferia pensar que havia um pouco de vermelho também no azul, formando o índigo. Assim eu não sentia a unilateralidade do meu espasmo.

Ah! Eu também não disse que nunca acaba o meu texto. O início tarda, mas a conclusão também não é meu forte. Afinal, as minhas variações são imensuráveis, e de vermelho em todos os tons, eu vou deixando puírem palavras das mais insignificantes, porque nunca faço sentido. (Explico: Vermelho é ódio e amor. Alegria e dor. Como posso ser inteligível também a mim? Tão contrária, acabo por neutralizar-me. E no verde, então? Escolho um dos lados ou escolho a morte. Acinzentar-me seria sutil demais para a minha significância).

O que será, pois, se eu não findar o texto?

Deve ser trivial que eu conte então, que alguma parte do meu corpo de que eu não tinha consciência agora reclamavam horas de atenção. Eu via o farol luzindo na cor laranja. Devia ser mesmo perigoso. Devia eu manter a atenção. Mas que era o mundo ao meu amor? Que era o círculo cromático à minha retina? Que ordem haveria na freqüência espectral se eu não pensasse no esplendor do mágico respeito pela experiência de deixar o posto rubro e tomar a sem-gracinha tabela de acinzentados?

Eu vi quando encostei a mão na sua mão, sem querer e sem que ele sentisse, Matiz, Luminosidade e Saturação. Tudo num segundo, como nunca, porque eu detestava antes a forma circular nas representações quaisquer.

Mas moço, tenho que parar? Findar o que recordo?

Dize-me como? Se nunca, nunca antes houvera a profusão de um riso em mim, por ser piegas e virar paixão como se fosse como qualquer outro vermelho... Tola, tola, ai, como era tola pensando no respeito pela cor de Deus, a alma emudecida pela atração pelo ininteligível, como desejo, capricho, qualquer coisa que influísse um manto de pureza na minha tonalidade primária.

Aquele tom. Olha... Aquele tom, não é possível que o gerasse outra vez um Deus. Porque incompreensível a paciência de sofrê-lo um pouco mais, delicadamente, outra que não eu.

E silencio! Os beijos mudos? Não sei... Mas ó, paixão que sou e guardo a alma cheia de contrastes felizes e tristes, sem admitir realmente que o apetite é raro pela dor de amar. Silencio! As minhas variações cevando todo esse espaço que é o silêncio, porque a folha já acaba o verso. Canto as cores dos lábios que não toco. Quais não sei, porque os olhos vidram.

A cor não pode ser representada. Porventura, é sem nome! Inexiste. Portanto, é eterna. E não limita o acaso de uma narrativa pormenorizada. Eis um verde inopinável...

*Texto de Clara Campelo do blog Zebra Trash

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Futuro pretérito

E se eu tivesse coragem, te chamaria pra ver o filme que milagrosamente está em cartaz na sala de cinema fria. E compraríamos pipocas e cocacola e até ficaríamos meio sem jeito no início, mas depois as coisas tenderiam a se acertar e estaríamos de novo à vontade, como é de costume. E depois caminharíamos até um bar, ou uma sorveteria, ou um lanche (como diz o pessoal daqui) conversando sobre o filme, nossas impressões sobre o roteiro, a fotografia, a direção, quase sempre deixando a atuação de lado, fora de foco, porque somos assim e realmente temos isso em comum. E durante a caminhada iríamos vislumbrando mais e mais quanto de cada um tem no outro, e sentiríamos aquela ânsia na boca do estômago, ainda sem saber se boa ou ruim, sabendo apenas que é ânsia e se é ânsia tem uma razão de existir, talvez oculta ou clara demais, mas sempre a ponto de cegar. E depois de umas cervejas e uns cigarros a conversa já estaria solta e falaríamos sobre projetos e música e cinema e sentimentalidades e todos os assuntos sobre os quais costumamos conversar quando somos somente nós, deixando os outros nós e todos os outros seres viventes em suspenso, à deriva. E novamente a sensação incômoda de espelho, assim como tenho com minha melhor amiga e você deve ter com mais alguém, e novamente a sensação de medo de estar se mostrando a alguém que, embora grata surpresa, é um ilustre desconhecido. E ao chegar em casa, na sua ou na minha, iríamos sorrir daquele jeito que as pessoas sorriem quando estão sem-graça e tentando disfarçar o quanto aquela situação, por mais constrangedora que seja, é exatamente a situação que você esperava. E quase como num romance você me beijaria devagar, relembrando meu gosto, e me apertaria contra o peito como se fosse morrer se me soltasse. E eu me faria completamente sua, sem cerimônia, porque não há razão alguma em lutar contra isso, eu acredito nisso, eu me diria isso repetidas vezes em silêncio e no escuro, só a brasa do cigarro por companhia. E por acreditar nisso eu sentiria toda a intensidade do teu toque e conseguiria definir o desenho perfeito da tua língua entre os meus dentes. E você me sorriria e perguntaria, quase num sussurro, que mistério é esse que há entre nós que nos fez tão próximos em tão pouco tempo. E eu te responderia que também ando me perguntando isso, a cabeça irrequieta e o coração pateticamente exposto. E você tentaria fingir que as coisas não são assim, e eu pensaria na ingrata criatura que tu me serás futuramente, e já até sinto o gosto de cinzeiro de tantos cigarros comidos quando você findar por me machucar. Mas àquela hora, àquela hora em que estaríamos somente nós na escuridão quente do teu quarto ou do meu quarto, eu me esqueceria da ingrata criatura que tu me serás e só pensaria na grata surpresa que tu me seria naquele momento de mel e suor. E pensaríamos em todas as coisas que haveriam de ocorrer dali em diante, de como estaríamos mais próximos porém mais distantes quando todos juntos, naquelas noites de cerveja e divertimentos mundanos. E tentaríamos fingir que somos imunes a isso, melhores que isso, somos adultos e maduros, ninguém acreditaria nas ânsias que sentíamos se não disséssemos aos outros. Mas findaríamos por seguir, com medo e possíveis dores, porque haveria essa vontade soberana e inexplicável de nos sentirmos vivos. Porque seríamos esse tipo de gente assim, que sangra pra se sentir vivo. E deixaríamos sangrar.

Texto escrito em 2008, quando meu relacionamento ainda nascia.

domingo, 19 de dezembro de 2010

A Ponte


As cicatrizes já não doem, nem mesmo em tempos frios. Se às vezes lembro que existem, o sorriso diminui nos lábios por pouquíssimos segundos. Não mais que isso.

As palavras que por toda uma vida se calaram comigo ferem menos do que as que usei para magoar (mesmo que sem perceber) outras pessoas. É um fato com o qual convivo bem.

Não sou do tipo de pessoa que se arrepende só do que não fez. Na realidade carrego um certo orgulho de muitas coisas que evitei.

Assim como tenho certa angústia de lembrar do que poderia ter feito diferente também carrego a tranqüilidade das coisas boas que conquistei ao longo do tempo.

Já sofri decepções como todo mundo nessa vida. Também já provoquei infelizmente sofrimento em outros.

Já desconfiei de pessoas que mais tarde aprendi que podia confiar. E, infelizmente, também já confiei muito em outros que aprendi, a duras penas, que era necessário duvidar.

Não há nenhuma façanha em tudo isso. Passamos, cada um a seu momento, por situações semelhantes. Mas, a grandiosidade de se abrir os olhos para um novo dia e encher os pulmões de ar me faz ver que é muito bom estar viva para escrever.

Um dia ainda conto a história da ponte pra você. Ou talvez não. Na realidade era um pensamento fruto de uma mágoa que um dia tive.

Quer mesmo saber? ...

Bem, a ponte nem mesmo existe, só que aqui, na minha imaginação, era bem alta, sem cordas pra se segurar, balançando sobre um precipício.

Altíssima, estreita, comprida e completamente insegura - eu jamais ousaria passar sozinha por ela! Mas, por diversas vezes me ofereceram a mão para me acompanhar até o outro lado. Quando dei por mim, estava lá bem no meio da ponte... e sozinha.

Sei que parece triste. Só que eis que aparece você, segura firme minha mão e me ajuda a equilibrar. E ainda agora estamos passando pelas inseguranças dessa ponte. Ela às vezes parece uma aventura perigosa, mas com você ao meu lado conquistei essa certa coragem. Acho que isso me basta para enfrentar o medo e sorrir. E só precisamos continuar de mãos dadas assim.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

terça-feira, 30 de novembro de 2010

carta aberta de um incerto apaixonado*

Sinto a dor anestesiar minhas entranhas, como uma lâmina que corta sutilmente os pulsos de um suicida famigerado. Uma dor que nunca foi tão profundo dentro de meu corpo. Sinto o coração apertado, o peito doendo, as mãos trêmulas como uma bandeira fincada no topo de uma montanha. Mas de que adianta passar base sobre a ferida, se ela ali permanecerá? Quero um remédio que cure a dor, que cure o aparente, mas talvez nem nas melhores farmácias se encontre algo que faça efeito em vinte e quatro horas. E na farmácia cerebral, então, é que não existe mesmo.

Como te dar certeza, como te prender a mim, se eu não sei? Se não sou sabedor dessa coisa que ainda chamo de mente. Escura mente. Indecifrável mente. Estúpida mente. Como te segurar com minhas mãos, te pedindo que não vá, se não tenho pássaros em gaiolas e os prefiro ver livres para pousar onde acharem que devem? E como não te dizer que te amo se, definitivamente, é o sentimento que me corrói inteiro por dentro? Como te dizer que não te quero, se com meu corpo e alma é isso que desejo? Como posso ser egoísta a tal ponto de te querer pra mim, mas não poder me doar como, indefinidamente, eu gostaria?

Sinto minha voz rouca, meus cabelos desgrenhados, meu corpo desfalecendo à simples percepção de que deixar ir pode significar nunca mais voltar. Sinto minhas mãos abraçando o vento enquanto durmo e tenho sonhos que outrora foram reais. Sinto-me extasiado, demasiadamente cansado, copiosamente lacrimejando ao mero sinal de que o nunca mais não existe pra mim, mas que nada é igual pra todo mundo, e que essa deve ser a conseqüência para as coisas da vida pela qual você se arrisca. Mas e não saber, e não saber, e não saber?

Como resistir à tentação de não te ligar, de não te enviar um torpedo ou de simplesmente olhar em seus olhos? E como olhar em seus olhos, em meio a essa luta interna de sentimento, e dizer que não consigo, que não posso, enquanto quero me jogar nos teus braços, beijar a tua boca e deitar no teu colo? Não posso fingir que você não existe e não me sinto capaz de perceber que pra você eu não existo mais. Será isso o necessário? Será que você vai me apagar, me esquecer e pensar que eu realmente já não existo mais?


*Texto de Jeronymo Artur

domingo, 28 de novembro de 2010

Chuva Fina


Era um dia cinza e frio. Entrei no ônibus e sentei-me num daqueles bancos altos, sozinho. Fiquei olhando pela janela a chuva fina molhar a cidade toda aos poucos, sem pressa. Duas moças sentaram-se à minha frente e uma delas ouvia passiva a outra relatar suas dores de um amor distante.

O que mais me cativou não foi a história da moça em si, e sim a pergunta que ela fazia para si mesma em voz alta: ‘Como é possível sentir saudade de um beijo que nunca ganhei?’ Naquele momento me senti tentado a corrigi-la. Quis dizer que havia um equívoco na pergunta. Ela deveria dizer que desejava muito o beijo, pois não haveria como sentir saudade do que não viveu.

Ainda bem que não disse nada a ela, pois o equivocado certamente era eu. Afinal de contas o sentimento era dela, ninguém melhor do que ela para descrevê-lo (ou mesmo questioná-lo). Visto que a amiga apenas sorriu, provavelmente a julgando tola, ela se calou. Eu também me calei. Na realidade, nem estava falando. Mas calei o pensamento.

Pude entender que ela realmente devia sentir saudade. Olhei para fora e percebi que a rua estava completamente molhada, mas a chuva continuava fina. Sem pressa, como tudo nessa vida necessitava ser. Desci duas paradas depois da que eu deveria descer. O pensamento de ter saudade do que não vivi tomou conta de mim de tal forma que já nem sabia direito pra onde estava indo antes. Só que agora eu já sabia onde queria chegar.

Thais Carvalho

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Do dia que te vi na rua*

Te vi na rua. Mudei de caminho. Talvez tivesse sido melhor mudar o pensamento pra evitar aquela velha história que começa pelo fitar dos olhos, vem gelando os sinos, as orelhas, a boca começa a ficar seca e ao mesmo tempo os joelhos começam a tremer e ela, claro, sempre, anuncia sua volta triunfante, com toda acidez e amargor possível para alguns metros de estômago.

Teria sido melhor se eu ao invés de desviar o olhar, desviasse o carro e batesse na primeira latrina, no primeiro poste que estivesse pela frente. Aí sim eu teria motivos para sentir dor. Enganaria meu cérebro, deslocaria as sinapses para a testa batida no volante, ou pra perna amassada pelas ferragens, ou para as orelhas atingidas pelos estilhaços do vidro. Aí sim eu teria motivo para doer à vontade e deixaria minha gastrite quieta pra sempre.

Se eu tivesse escolhido outro caminho, aquele que costumo ir... Mas não, logo hoje decidi fazer um percurso desconhecido só por que ouvi dizer que faz bem para o cérebro. Exercita. Deixa inteligente. Mas eu não quero ser inteligente. Quero só ser eu e em toda a miudeza dos pequenos grandes detalhes e defeitos pré-moldados.

Talvez eu devesse ter saído de bicicleta, mas o pneu dela está sempre murcho. Sempre, sempre, por mais que eu insista em deixá-lo apto para a minha próxima volta. Pensando bem, se eu tivesse saído de bicicleta também tinha te encontrado. Você está em todos os lugares. Nos orelhões, nas calçadas, nas vidraças, nas costas de meninos e homenzinhos em puberdade. Nas camisetas da Hering, nas cores que vejo pelas vitrines. Não adianta eu desviar o caminho. Sempre vai ter um quiosque que vende cachorro quente, sorvete, pipoca doce, pizza, sushi... que você gosta, assim como eu, de coisas que engordam. Pois é, somos dois falsos magros com cérebros gordos, mas eu só queria ser inteligente. É eu sei que disse que não queria ser, mas na verdade, no fundo mesmo, eu queria. Queria poder assistir filmes e ouvir músicas sem conectá-los aos meus sentimentos - olha a pretensão- como se os autores tivessem feito aquilo que vejo e ouço só pra mim. Sou burra, eu sei. Mas todo mundo acha que o que serve como carapuça, foi feito por encomenda.

Eu te vi na rua mas não desviei. Passei por cima e você nem me viu.


*O texto é da escritora Kaline Rossi. Que seja só o primeiro de infinitos por esta Confraria. é o que esperamos.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Da despedida forçada, ou como lidar com um sofrimento inevitável

Daí que moro em terra estrangeira há mais de quatro anos. Foram quatro anos inteiros com o desejo maciço e permanente de voltar pra casa. Mas o momento nunca chegava. Chorei sozinha, quis fugir, cheguei a pegar o carro e dirigir até o aeroporto com a mala no banco do passageiro, mas voltei a tempo de repensar e decidir que não se morria dessas coisas.

É claro que em quatro anos nasceu um monte de gente na minha vida, um monte de pseudo-amores que coube a mim, com o tempo e com a razão, transformar em amores de fato ou apenas experiências de crescimento. Sempre deixei meu céu aberto pra invasão alheia, porque a saudade de minha casa me cegava pra um fato: o que eu ia fazer desses amores quando fosse a hora de voltar em definitivo?

Estive tão afundada no desejo maciço e permanente de voltar pra casa, pros meus, que deixei no modo espera o fato de ser, hoje em dia, absolutamente dividida em duas cidades. Ignorei que mesmo morando em terra estrangeira eu tenho casa, minha casa, o peito do homem amado que me abriga há dois anos. Ignorei que aqui fiz amigos reais e pra vida toda, apesar da distância física diminuir os ímpetos sentimentais. E agora, agora tudo veio à tona.

Sim, vou embora, cedo ou tarde. E a solução mais prática e menos indolor era, claro, levar todo mundo embora comigo, fundir minhas duas vidas numa só. Mas não é possível, ou é? Alguém tem o resultado favorável dessa fórmula matemática?

Então me peguei pensando, já com uma dor latente, no tanto que eu perco. Porque amizades à distância se mantêm, mas e meu amor? O porto seguro que nadei, nadei e quase me afoguei tentando encontrar? Meu lugar preferido, como fica?

Vou me preparando então para, obrigatoriamente, esquecer. Esquecer alguém não por ter me feito mal, e sim por ter me feito a pessoa mais feliz do mundo. Esquecer alguém não por desamor, mas por amor puro e intenso. Esquecer alguém simplesmente porque um capricho do destino fez com que ele tivesse nascido no Acre e eu em Brasília.

Esquecer os gestos, o cheiro, o sabor. Esquecer das palavras de afeto, dos momentos duros que enfrentamos, momentos meus e momentos deles. Esquecer o quanto um fez pelo outro. Porque viver com uma lembrança dessa é aprender a morrer, e eu não quero. Saudade só faz sentido quando se pode matá-la na saliva. De resto, é virar viúva de alguém que ainda vive. É se enrolar em uma mortalha pro resto dos dias.

E fica a pergunta: quando é que se poderá amar assim de novo? Quem vai me chamar de babe e viver cada momento íntimo que a gente viveu? Quem vai me ensinar a ser o melhor que eu posso ser, todos os dias? Com quem vou fazer cinema? Até nossos momentos íntimos em que somos um casal feliz e retardado, onde vão parar? Com quem farei a secreta dança da vitória?

Haverá uma resposta para isso e para tudo. No mais, vou aqui fingindo que não me preocupo com isso, e que tudo vai dar certo no final.

Enquanto isso, vou redecorando as palavras de Chico Buarque, que sabiamente diz que “a saudade dói latejada, é assim como uma fisgada num membro que já perdi”.

Se dependesse do que diz Chico nessa canção, esse post seria só o vídeo. Porque ele basicamente diz tudo, né.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

A gravidez

Poucas cenas são tão simbólicas na representação do mais puro amor, do que a da mãe grávida acariciando o ventre durante a gestação. O chamego embrionário promove de maneira misteriosa, uma múltipla repercussão em todo o ciclo social da mãe e por que não, do pai.

A mulher grávida é tratada como uma valiosa obra de arte, daquelas dos leilões milionários, sensíveis ao toque e com o respeito que só um grande artista tem. Mas é fato que ela é muito mais que isso, ela além de mudar-se muda seu redor, promove paz e cultiva esperança.

Através do que conhecemos como instinto maternal, ela consegue criar o ambiente tranqüilo para a paz do bebê mais bonito. Todos se sentem movidos a ter paciência, atenção, carinho e amor de forma generosa e sem cobranças.

Os horários se tornam mais flexíveis e a saúde passa a ser prioridade, o desejo de bom dia é mais sincero, e o trânsito já não irrita mais, a fila do banco não tem pressa e ela ganha fiscais de seu bem estar por onde passa.

É durante a gravidez que a sociedade mostra sua mais bela faceta, nos enche de orgulho e consegue ser verdadeiramente feliz, e por mais que o sistema imponha cada vez mais limites, a mulher grávida será sempre uma magnífica prova de amor.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

A gente nunca esquece...


... A primeira vez: o primeiro olhar, o primeiro beijo... são todos tão valiosos para uma relação e por isso mesmo tão citados. Um desses momentos - quase sempre esquecido - porém igualmente ou ainda mais valioso é o primeiro encontro de mãos.
Estar em contato com uma pele que antes nunca tenha tocado, sentir a textura do outro, sua diferente temperatura são essenciais para o amor.
Sejam mãos inseguras ou firmes, delicadas ou calejadas, pequenas, grandes, macias, ásperas, tímidas ou decididas. O primeiro ato de dar as mãos em um romance é a descoberta do outro. Dá uma sensação de que, de mãos dadas (com aquelas específicas mãos, insubstituíveis pro coração) é possível enfrentar tudo que vier.
É a partir desse conhecimento (e reconhecimento) das mãos do outro que nasce uma certeza ainda mais forte de que não se está só no mundo. Que se separem por algumas horas, dias ou meses... mas sabe-se que a extensão de si mesmo pode ser reencontrada e novamente conectada por elas. Tão frágeis, mas tão grandiosas - as nossas mãos dadas, confiadas, sejam por amor, ou paixão... ou não.


Thaís Carvalho

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Quem ama recomenda


Os mais antigos hão de recordar daquele casal nu, como numa referência a um dos trajes mais adequados à felicidade no romance, onde suas figuras sempre eram acompanhadas pelo famigerado preâmbulo “Amar é...”. Se, num desses lances de suerte, me permitissem dar uma contribuição para o legado dos naturalistas conselheiros, diria: “Amar é... recomendar.”

Quem ama recomenda. Só se quer apresentar o novo, o melhor, a experiência, o ponto de vista para quem se ama. Já amei, e como não podia deixar de ser, recomendei. Recomendei tudo que mais admirava. Tudo que mais sabia.

Para a dama, provei meu amor ao apresentar Robert Crumb. Ao explicar que se dormisse oito horas por noite podia se sentir melhor. Que se você entornasse aquela tequila sem ingerir muita água antes, podia ter aquela ressaca apocalíptica. Ou quando sugeri que o arroz podia ficar um pouco melhor com ervilhas. 

Expliquei a mágica que só pipoca salgada e com bolinhas de chocolate podem proporcionar. Lembro quando pedi pra que saísse um pouco mais cedo da faculdade para termos mais um tempinho juntos naquela sexta-feira cuja aula era um vídeo da Ilha das Flores. 

Recomendações dadas.

Sei reconhecer as recomendações que me ofertaram. Lembro que me recomendaram ouvir Damien Rice. Ou que assistisse a grande película hermana “El secreto de sus ojos”. A macarronada naquele restaurante italiano escondido. E teve a vez em que me foi pedido morder de leve quando se finaliza o beijo.

Recomendações recebidas.

Na recomendação não cabe a arrogância professoral. Não tem espaço para a mesquinhez do “te avisei”. Não se obriga. Faz se quiser, e não ofende por deixar de fazer. A recomendação não foi inventada para se mudar alguém. Apenas é um bônus de afeto. Se não for, não é recomendação.

Uma recomendação sempre carrega no quengo uma dose de ingênuo bem querer. Se recomenda é porque se torce a favor. Repito, é porque se ama.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

A sorte

"Audaces fortuna iuvat" - A sorte proteje os audazes

É como se me mostrasse o oásis
E me pedisse prova de merecimento
Julgou-me por critérios desconhecidos

O resultado foi o que se esperava
De quem apenas sentia que podia
Mas não provava o que sentia

A demora e a dor são necessários
Mas a recompensa haverá de curar
Todos os mal entendidos

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Se cuida

Nada planejado. A pergunta. O sorriso tímido. A junção de 5 sílabas. Fora o bastante.
O carro não tinha espaço o suficiente e o barulho lá vindo de fora era pertubardor. Ele preferia o silêncio. A quietude e mansidão de algum lugar para aproveitar a única oportunidade boa que a vida lhe dera em décadas. Suas mãos nervosas não sabiam repousar depois de trocar a marcha e logo aprendeu a usar somente uma mão para guiar o carro... A mão direita segurava firmemente a dela. Unificando o tempo que ainda tinham juntos... Aumentando a veemência daquela noite que nenhum dos dois jamais esqueceria. Passearam pela cidade, até encontrar um lugar em que pudessem repousar a frustração um do outro. O silêncio entre eles nunca existira, nem mesmo em um olhar. Havia muito a ser dito, e sentido, em apenas algumas horas e se privar de tamanha benção seria errôneo demais. Não queriam pensar no depois, no amanhã. No peso que carregavam nas costas. Estavam sendo jovens, imprudentes, imaturos guiados pelo sentimento, vontade – bem longe de qualquer razão - e conseguiam sorrir e regozijarem com isto.
Suas mentes foram pra bem longe. Podia-se dizer que o alter-ego de um guiava o do outro. A troca súbita de ‘conhecimento’. Alcançavam a paz interior.

~

P -

Os toques delicados beirando pinceladas. As coxas estendidas sob o lençol branco. Os gemidos que faziam com que a mente não quisesse estar em outro lugar a não ser ali. Guardando aquelas expressões no lugar mais seguro que tinha em seu âmago.

E -

O corpo sobre o seu. Esforçando-se para provocar algo mais intenso a cada segundo, a cada investida. As mãos tocando seu rosto, os lábios sugando o seu suor. Os olhos penetrando a sua alma. Como nunca ninguém fizera antes. Como ninguém nunca se importara em fazer...

Não tinham a mínima idéia de quanto tempo ficaram imersos em carícias e sorrisos bobos. Duas bestas sentimentais. Vivendo pela primeira vez, juntos, algo inusitado. Inesperado demais. Tão completamente novo que fazia-se tornar seguro. Mesmo que o mundo os chamasse de volta com pequenos alertas – imperceptíveis.

Foi ele que voltou a si. Lembrando do quanto era antiquado, do que esperavam que ele fizesse depois. -De como devia agir. As palavras que devia usar. A rotina que deveria seguir. Apenas aquele momento, pra ser completamente o que queria. Com ela.

Fotografou o rosto redondo e macio pela última vez. Contemplou aquele par de petecas marrons e voltou à realidade. Sem se permitir sofrer.

As mãos continuaram juntas até o destino. Ela sentia o cansaço tomar conta do seu corpo. Mas sabia que tudo aquilo seria multiplicado, na manhã seguinte, em sua cabeça. Beijava-lhe as mãos. Queria manter o cheiro dele em sua pele. Eternizar tudo em lembranças. Guardou em seus ouvidos cada música que parecia expressar completamente o que acabara de acontecer. Mais tarde iria chorar por não ter dito o que devia.

O Adeus foi breve. Quase a despedida de dois saudosos amigos.

‘’Se cuida’’ - Disseram um ao outro. O último beijo. A última união dos lábios chorosos de vontade.

O início do fim. O que poderia ter sido e não seria. Jamais. O tempo passado antes de chegar. As vidas seguidas como se nada tivesse acontecido… Um devaneio passageiro.

A vida normal os esperava lá fora.

‘’Too young to hold on and too old to just break free and run…’’


Texto é da Fany Dimytria do blog Cold Water. Eu (Helder) não via a Confraria sem um texto dela, no caso feito especialmente para nosso blog. Espero que ela não demore para enviar o próximo.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Insulto I


"Uma peregrinação involuntária talvez fosse a solução.
Auto-exílio nada mais é do que ter seu coração na solidão"
Conexão Amazônica - Legião Urbana

É discurso fora de moda, vai à contramão da humanidade, do progresso, da liberdade sexual, da vida artística de malhação e novelas das oito. Mas o fato é: o mundo inteiro está infeliz com tanta liberdade.

E boa parte da culpa deve-se as opiniões turvas, e cheias de ênfase, dos auto nomeados intelectuais modernos, que não passam de primatas que usam a linguagem de forma oportunista.

Leia duas ou três vezes a opinião de um antropólogo de araque, aqueles de determinam o lote e o prazo de validade do amor, e perceberá que seus argumentos não suspendem uma pena ao vento. Os cientistas e seus vícios de classificar tudo e todos, reduzem um complexo jogo de sentimentos a algumas ligações de sinapses nas regiões do cérebro afetado no ventre.

O fato é que em situações vexatórias, onde não são analisadas as telas de raios-X do cérebro, até o mais racional dos seres recorre à poesia, ao abstrato, e tudo aquilo que não podemos reduzir a uma função matemática.

A música, a pintura, a literatura e até as imagens do Google, expressam melhor um sentimento do que a opinião de um especialista (os de araque). Uma piada de bar talvez cause tanta reflexão, quanto uma análise da conjuntura sócio-afetiva de um sujeito abandonado.

O discurso fora de moda não descarta o valor do livre pensamento, e da ciência, mas afirma que os valores têm importância maior do que um livro de Engels, que colocar-se no lugar de outrem vale mais que uma leitura de horóscopo, e que respeito não se aprende na faculdade.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Convivência*

Foi na feira de livros infantis que a viu pela primeira vez. Dali a cinco anos estariam casados, com dois filhos e insuportavelmente dividindo a mesma casa. Se soubesse disso, não dos filhos, jamais teria parado para perguntar se ela já tinha lido O Pequeno Príncipe. Foi amor a primeira vista, garantiram. Mas a convivência é mesmo uma merda. E ela passou a se incomodar com as cuecas jogadas fora do cesto de roupa suja. E ele passou a se incomodar com a tampa do vaso sanitário sempre fechada. Era pasta de dente apertada em qualquer lugar e louça suja por um dia inteiro em cima da pia. Se soubesse de tudo isso, que chegariam a esse ponto, jamais teria contado a história d’O Pequeno Príncipe, quando ela respondera que nunca o tinha lido. Casaram na igreja mais bonita da cidade, e mais antiga também. Tinham amor para a vida inteira, como diziam. Tinham cativado um a outro e eram ambos responsáveis por isso. Mas a convivência, lá vem ela, os tornara tão desconhecidos quanto antes de trocarem as primeiras palavras naquela feira de livros infantis. Ela, sabedora de tantas coisas, resolveu deixar a vida levar para o caminho que desejasse. Ele, que sempre fazia tudo o que ela queria, concordou e seguiu assim. Mas as revistas de moda espalhadas por toda a sala, e a televisão sempre ligada no SporTV começaram a não só torná-los insuportáveis um com o outro, mas com todos os outros. Não recebiam mais visitas e sequer dormiam no mesmo quarto. Mandaram os filhos passarem férias com os avós. O pai dele e a mãe dela. Cada um com um para, pelo menos aí, não se desagradarem. Ele resolveu sair de casa, não ia criar caso por causa de um sofá velho presenteado no casamento. Ela, naquele dia, resolveu ir dormir na casa da melhor amiga. A casa ficou vazia. Sem desentendimentos, sem crianças, sem pais, sem amor. Ele decidiu que realmente ainda não estava preparado para iniciar um novo relacionamento. Olhou bem para aquela moça na feira de livros infantis, mas depois de vivenciar mentalmente como estariam dali a cinco anos, devolveu O Pequeno Príncipe para a prateleira.

*Texto de Jeronymo Artur. Há tempos ele já escreve. E muito bem.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Dimytria II


 Dimytria sentia sua garganta dolorida. Mas não era dos gritos que conseguia externar e sim daqueles internos que outrora prendera para não machucá-lo. Talvez a culpa dessa situação fosse sua pois, quando deveria falar, calou-se. Havia uma possibilidade do que poderia ter dito, tivesse mudado algo.

 Engolia a seco. Prendia suas lágrimas distanciando pensamentos sobre ele. Concentrava-se na sua respiração para não desabar prematuramente. Sabia que a partir de hoje sua vida seria diferente com ou sem ele.

 E quem vai entender o amor? Pode ser que nem exista. Pensava. Agora deitada em seu sofá, sua cabeça cuidadosamente encaixada na almofada. Lágrimas desciam lentamente de seus olhos. Era impossível evitá-las - percebeu.

 Adormeceu ...sem respostas

Filosofia barata das ambiguidades amorosas

Pensemos por um momento nas ambiguidades e o quanto podemos suportá-la, mas antes de entrar nessa questão especificamente, vamos ver seus desdobramentos em nossas vidas. No que toca a nossa sociedade, as ambiguidades são evidentes, estão por toda parte e não só nas relações e nos fenômenos como em nós enquanto pessoas, elas nos atravessam o tempo todo. Ocorre, a despeito disso, que muitos pretendem suprimi-la, e quando percebem que isso não é possível por completo, tenta-se pelo menos disfarçá-la, criando ilusões de que ambigüidades são dissimuláveis. O amor, por exemplo, é uma boa expressão disso, ele é ambivalente, pois não é uma unidade total, completamente coesa, com sentimentos sempre alinhados e afinados, mas um continuum ambíguo, e afinal essa é a própria dinâmica da vida.

Se você, leitor, assim como eu, vê algum sentido nisso aceitando tal argumento como uma verdade ou pelo menos como uma quase verdade vai se deparar com o seguinte fato: se nós recusamos a ambiguidade em nossas vidas e sendo o amor uma de suas expressões, significa que há uma tendência nossa de fugir dele e recusá-lo também. É importante explicar que o fugir do amor não é necessariamente recusá-lo em seu modo radical, recusar aqui significa uma gama muita variada de modalidades possíveis, por exemplo, podemos dizer que fugir do amor é complicá-lo, colocar condições tolas, adiar sua concretização, enfim quero utilizar o termo ‘recusar’ como todas as estratégias diversas para tentar suprimir e/ou disfarçar essa tal ‘ambiguidade’.

E é exatamente nesse ponto que reside o ponto mais interessante sobre nossa reflexão, pois quanto mais recusamos a ambiguidade, mais ela existe em nós, e por conseqüência quanto mais recusamos o amor mais ele existe em nós. Nesse sentido, o que proponho aqui é que quanto mais inventamos sua recusa sob diversos pretextos mais ele nos afeta e nos atravessa e, portanto, é mais presente; por outro lado, quanto mais se procura pelo amor mais o banalizamos e o esvaziamos - é um movimento dialético no sentido grego, sem síntese. É um mecanismo que funciona inversamente proporcional, ou seja, quanto mais se extingui algo mais se cria, quanto mais se suprimi mais se multiplica; podemos dizer, por essa razão que a invenção sempre contrainveta alguma coisa. Isso, por exemplo, corrobora a máxima popular de quanto menos se espera o amor mais próximo ele está de acontecer, justamente porque você não está a inventá-lo artificialmente ou forçosamente, e o inverso é verdadeiro, quanto mais se procura menos se encontra.

Para concluir, as ambiguidades são fatos, e temos talvez três opções diante delas: uma, recusar por inteiro, outra aceitar completamente, e uma terceira, que me parece a mais inteligente, equilibrar, aceitar em partes a ambiguidade e recusar em partes também, encontrando uma espécie de meio termo, que por natureza não é perfeito, mas satisfaz, traz conforto. Nesse sentido digo, sejamos medianos, pois este pode ser um modo de se equilibrar na inevitável incompletude das coisas e uma maneira de lidar com a ambigüidade sempre presente em tudo e todos.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Carta à tímida


Querida,

Fizeste muita, mas tanta questão, pura birra, em deixar minha persiana fechada, luzes apagadas, e de nada serviu. Existem as indiscretas brechas da janela. Pra que festas à fantasia, se existem as frestas da fantasia? Sim, minha compañera. Elas são pequenas revelações, ou melhor, pequenas acusações do desenho da tua silhueta de fino-trato e personalidade fuerte.

Uma luz raquítica e cinzenta, mas que é das minhas. Não me deixa sem a imagem dessas curvas discretas, mas que se vacilar, acabo derrapando fácil.

Diz a ciência que o polegar opositor fez da nuestra espécie a mais evoluída entre os animais. Pra este darwinista de araque, o formato de pinça da minha mão só ganha dignidade quando encontra tua cintura estreita, mas com presença.

É da tua índole me incriminar de só pensar com a cabeça debaixo. Blasfêmia! Gaiata, penso em você com todas as cabeças, inclusive com a dos dedos – estes que perdem a prudência na cobiça de tocar essa macia carne pálida.

Sempre que recordo daquela cena, acendo meu cigarro imaginário, pois todo orgasmo exige um, mesmo dos que não fumam. Usted não imaginas o quanto é difícil se concentrar na pauta exigida pelo editor, quando minha concentração está na cena: tua nudez na minha cama de solteiro – donde você fez questão de ocupar os latifúndios produtivos e improdutivos com sua singular folga charmosa.

Esta carta é só pra deixar clara a perturbação que provocaste. Nada mais. Nem te cobro uma resposta. Sei da tua satisfação em me deixar nesse estado. Ainda me recordo de enxergar no breu o furinho da tua bochecha, culpa de um sorriso doloso, entretanto, sem perversão.

Afirmo que não me tapeia mais com timidez. Você é calculista. Apenas precisava esclarecer. Mas te quero.

Desassossegadamente,

H. C. Jr.

PS: Envio em anexo tuas fotos que fiz. Tenho molduras para elas.





*Apenas para evitar qualquer confusão ou algo do tipo, lembro que é uma ficção, povão. Tanto texto quanto fotos. Nada mais, cierto?

Sujei-o de batom

Foi a mim confiado como peça valiosa. Mas eu, sujei-o de batom. Nervosa, desajeitada, sem saber onde colocar as mãos, eu simplesmente sujei-o de batom. Deixei a marca mais indesejável, suspeita, errônea que uma mulher pode deixar no que não é seu. Ou – no que é seu por um instante clandestino. Era essa a forma que eu tinha de agradecer a confiança a mim reservada? Esse era o tratamento desleixado que eu oferecia a algo completamente entregue em minhas mãos? E agora, que explicação teria? Quais desculpas se carregam em páginas seguintes para um descuido tão inútil e revelador? O que responderia ao olhar decepcionado, naquela noite, sob a luz da luminária na cabeceira da cama? Reparar, assim, naquelas entrelinhas, uma marca inexplicável e irreparável...

Naquela sala de espera, no ante-momento que decidiria os próximos caminhos da minha vida que é alheia e pessoal, sujei de batom aquele livro que me destes para ler enquanto o esperava. Como isso veio a acontecer? Pergunta grotesca, desconcertante. Peguei o livro e me entreguei à dança de segurá-lo com uma mão e folhear com a outra que, entre página e outra, também apoiava o queixo e tocava os lábios. Para confessar, na minha inquietude, a cada folha virada, a cada verso olhado e não lido, entre aqueles minutos eternos que você finalizava o seu trabalho, eu também roia os cantos dos dedos (as unhas, jamais) e foi assim que deixei a minha digital rosa na ponta superior daquele papel branco, sobre aqueles contos de teatro marginal.

Em desespero, fiquei. Como poderia aquela marca aparecer ali? Simples e inocente? Era a prova do meu desjeito. Minha reprovação. Minha censura. Tentei apagar com saliva (como a gente faz no colégio, quando borra o lápis e não tem borracha). Piorou. Sujou ainda mais. Era inútil qualquer tentativa de recompor a página branca, lisa, limpa. Marca de batom é marca para a vida toda. Esperei, conforme esperei minha condenação. Até que, na hora do juízo final, passou o livro ao meu pertencimento, com toda a minha culpa: “O livro é seu. Leve-o para você”. Deu-me de presente como a minha inocência vadia. Agora, eu posso sujá-lo verdadeiramente. É meu, mesmo impuro.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Dimytria I


Pegou seu celular e começou a ler as mensagens. Parou em uma:

"Te Amo A Lot Of"

Será que era isso mesmo? Porque nada se encaixava no modo como Pedro se comportava agora. Já não era mais aquele cara que roubou o primeiro beijo e que a tomava pelos braços.

A única certeza que tinha era que o amava ainda mais... mesmo depois de dois anos e de tantas mudanças ocorridas. Desconfiava da sinceridade de todos os " TE AMO" ditos por ele

...

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Posologia do porre a dois.


Extra, extra! Direto do calor dos Los Angeles, o casal inglês libera a pílula da sabedoria conjugal:

“Se as crianças já estão na cama, trocamos de roupa e vamos a um restaurante. Comemos um pouco, tomamos um porre e curtimos a companhia um do outro. Sempre fico ansiosa para sair à noite”, arrebata a eterna ex-Spice Girl, Victoria Beckham.

A afirmação, retirada desta matéria aqui, mostra uma sapiência fora do comum.

O boleiro David Beckham, que em outras épocas era tido como afeminado, praticante de atividades suspeitas tais quais usar a calcinha de su compañera durante os jogos, se mostra o guru da relação estável.

Caro Beckham, agradecemos por divulgar os benefícios de uma embriaguez com a amada. Valorize o porre a dois. É o grau máximo da intimidade, além do próprio coito em si. Vodcas, cervejas, tequilas, caipirinhas, cubas libres, enfim, independente da modalidade da ‘mardita’, elas fazem a primordial tarefa de unir ainda mais o casal.

Sem preconceito com adeptos de determinadas religiões anti-álcool, mas a verdade da bebida e suas conseqüências para o aconchego precisam ser propagadas.

Minha querida amiga Branca me confidenciou o quanto é feliz. A razão para tamanha alegria vem da afinidade etílica com seu esposo. O herói compra a birita, faz o tira-gosto e ainda serve de reboque quando o juízo se foi. É o marido perfeito, segundo ela.

Não falo nem dos casos de paixões arrebatadores que nasceram durante uma bebedice.

Romantismo é o macho carregar sua ébria querida para a cama. Ou a dama que desabotoa a camisa, retira sapatos e meias, desata o cinto e puxa a calça do seu embebedado do coração. Não importa quem caiu primeiro.

Aproveito o ensejo e faço aqui uma sugestión para a famosa pergunta matrimonial. Isso mesmo, estou me referindo àquela que consta o trecho “na saúde ou na doença”. Peço que seja adicionado “na sobriedade ou na bebedeira”, para aí sim mandar um “até que a morte, por cirrose ou não, nos separe”.

Outro “detalhe tão pequeno entre nós dois” que nem o Rei Roberto foi capaz de descrever é a ressaca solidária entre amantes. Nada como dois pombinhos terem a chance de dividir a culpa por uma amnésia alcoólica. No outro dia, pela manhã, não terás remorso pelas peripécias da noite anterior. Enfrentar a secura na boca, tremedeira e dor de cabeça segurando uma mão amiga é bem mais fácil.

Compartilhar os dramas financiados pelos pileques fortalece os laços afetivos. Só quem ama é capaz de segurar a cabeça enquanto a/o cônjuge provoca vergonhas e refeições passadas perante o vaso sanitário.

Lutemos por mais momentos dessa camaradagem. Briguemos pela dependência recíproca, onde um dá força pro outro na hora de encarar a realidade de ir comprar o dorflex e o engov na farmácia. “Amor, aproveita e traz um copo d’água.”, suplica a enamorada. Anos de terapia de casal não provocam tamanho efeito positivo.

¡Pelejemos pela ebriedade amorosa!

domingo, 10 de outubro de 2010

De onde vem esse vazio?

Dizem que a distância acaba com qualquer coisa. Mas se acaba, meu bem, é para reiniciar. É que a distância também é capaz de aproximar. E se distância distancia é porque, na realidade, nunca se esteve próximo. A distância pode dificultar mas, no fundo, ela facilita. Porque você só é o que você é, quando você está só. Talvez eu diga isso porque esteja um pouco triste por mais uma noite de domingo solitária. Sem pipoca, filme, missa, sexo e sushi. Talvez, porque esteja descrente do amor e ache tudo uma grande farsa e mentira. E seja obrigada a sustentar esse vazio não sei de quê, nem de onde vem. Mas consigo visualizar melhor a diferença entre estar namorando e ter um namorado. E, mais, a diferença entre estar acompanhado e ter um amigo. E quando me vejo solteira, sozinha e sem ninguém, escutando as mesmas músicas, lendo os mesmos blogs e tendo os mesmos pensamentos escrotos sobre “que merda que é essa vida” ou “fodam-se os homens”... Eu não sei o que pode ser pior. Dizem que tudo é questão de tempo e de costume. É claro, ninguém vai dizer: “sua puta, sua idiota, sua imbecil. Como você pôde fazer isso? Deixar alguém que tanto ama e que te ama? Você merece queimar no fogo do inferno!”. Porque de um lado, existem os diabinhos defensores da solteirice. E, de outro, os anjinhos, os cupidos defensores do amor. E no meio há você. Você imerso nas suas dúvidas, nos seus sonhos, nos seus desejos, nas suas saudades que só você sabe e só você entende e, se você não entende, ótimo! Afinal, você também tem esse direito. Além disso, mais cedo ou mais tarde a gente decepciona ou é decepcionado. Depois disso o processo de “esquecer e superar” facilita e acelera um pouco. Nunca vi ninguém entrar na fossa por ódio. A gente entra na fossa por não receber uma ligação “só pra dizer eu te amo” ou por não ter ninguém pra ligar “só para dizer eu te amo”. Por não ter alguém para abraçar e chorar um pouquinho quando qualquer dor inexplicável bater. Por não ter alguém que te entenda naquela idéia maluca para salvar o mundo ou naquela opinião esquisita sobre o último filme que viu. Ou, simplesmente, por não ter alguém para dividir você; ser alguma coisa junto e participar... No fundo, eu ainda prefiro achar que amor, amor mesmo, não é isso. E por isso, fico aqui sem saber direito de onde vem esse vazio...

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Amanhecer



Sabe quando a gente perde a direção

Quando os amores já não são mais tão amáveis

E o que passou, desceu rasgando sem piedade

E você pensa, você jura

Nunca mais fazer o mesmo, nunca mais acreditar

E cada novo amor parece espelho do passado

Refletindo cada erro, repetindo cada cena

Sem pausar

E você quer seguir em frente

Reescrever a tua história

Outra vez, ainda mais

Mas te parece que os reflexos to passado

Viram fantasmas sempre prontos

Predispostos a tirar a sua paz

E cada um tem um palpite, uma receita milagrosa

Que te tire desse quarto escuro,

E te liberte dessa dor

Mas, de tudo que já ouvi

Nada mais duro e verdadeiro

Do que o que alguém

Essa semana me falou:

‘Ergue a cabeça, olha pra frente

Que o passado...

Esse... já passou.’

Tanta coisa aconteceu enquanto eu dormia

Mas agora abro a janela

E posso ver com clareza

Que já é dia.


Thaís Carvalho

Hai kai da humildade da fêmea

Abaixe o tom de voz, mulher
Acorda, deixe de foba
Pois não te quiero cheia de querer ser

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Dicionário da Mulher – Verbete: A dança

Nemo saltat sobrius
"Ninguém dança sóbrio."
Provérbio latino


Entre as coisas das quais crio mais coragem em me aventurar após empurrões etílicos goela abaixo são escrever e dançar. E faço questão de me atrever no aprendizado de cada uma delas. Litros de certeza na cabeça e concentração nas mãos, pois é preciso precisão, como diz o outro, ao empunhar a caneta ou a cintura da dama cortejada.

De acordo com os ensinamentos de uma amiga, dessas que se tem mais do que amizade, a dança é, nada mais nada menos, do que 70% na hora de tentar o primeiro contato imediato com a intenção de chegar ao terceiro grau. Completando os dados do instituto de pesquisa Data/Romance, ela não me disse, mas arrisco afirmar que os demais 30% ficam a cargo do layout do sujeito, do papo dez e da confiança do abnegado.

É claro que a margem de erro se estica mais que borracha de estilingue, depende da ocasião. Sem verdades absolutas no cabo de guerra do amor. Mas não é por acaso que a minha querida diaba utiliza de métodos similares ao dos pesquisadores para provar que a dança é o atalho mais delicioso para alcançar o ouvido da madame.

Ah nós homens, somos tolos, cheios de embaraço em abrir mão da dureza segura de nossos quadris. Anos de educação negativa nos indicam que isso que coisa para os mais afrescalhados. Mentira. A mulher deseja de seu parceiro não só o acompanhamento, mas a condução dos passos. E para tanto, só sendo um “sem-vergonhi”. Elas gostam de “sem-vergonhis”.

Aos leitores-cinéfilos, não cabe a desculpa de falta de exemplos que provam a eficácia da dança. Vide o personagem do sempre genial Al Pacino, no fantástico “Perfume de Mulher”. Cego excêntrico, mas enxergava há quilômetros o valor do “dois pra lá, dois pra cá” bem executado. Vão de tango, a dança que mistura drama, romance e suspense de uma lapada. Nota-se que a moça, bem mais jovem diga-se, fica sem fôlego perante tamanha segurança. Risos e suspiros tímidos da pequena são os aplausos para o nosso herói.

Com algum tempo de jornada, confirmo que a dança de salão é um dos melhores pretextos para se falar as mentiras sinceras e verdades fantasiosas. É bom que só para flertar.

Não venho aqui enganá-los. Reconheço que ainda não fico nem perto de merecer o título de “Grão-mestre-pé-de-valsa”. Mas sou enjoado. Na minha teima, começo a apresentar sinais de evolução. Homo erectus dá espaço para o homem de swingtherndal. Entre uns passos em falso e pisões nos calçados femininos, vou assimilando a arte do entrançamento musical de corpos.

É sempre um prazer para o homem empunhar com a esquerda a mão delicada, na direita o quadril convidativo e no nariz o perfume de um cangote. O sacrifício de unhas pintadas com esmalte à serviço da dança é a materialização da compaixão superior de uma mulher, digno das deusas.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Mapa Astral


Uso este blog para que todos conheçam o que considero, o maior inimigo do amor: o horóscopo. Esse dossiê fabricado tem promovido inúmeras inverdades sobre determinados “blocos” de pessoas, e ninguém fala nada.
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Que os astros me perdoem, mas quem eles pensam que são para afirmar: “Sagitário não combina com peixes, câncer não combina com quase nada, e não adianta insistir”? Balela! Que coragem afirmar que as combinações amorosas se limitam a ascendência de um mapa astral! Prefiro acreditar na procedência.
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Câncer é emotivo? Errado. Seres humanos são emotivos, uns escancaram, outros engolem o choro. Relacionamentos com Áries é tenso, profundo, rico e desafiante? Pois bem, que relação não é? Será que existe o signo coringa, e ninguém soube ainda?
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De qualquer modo, é bom que exista o horóscopo de revista, o espaço preenchido no jornal local, e que continuem com os conselhos vazios do tipo: “O tempo da decisão chegou”, pode ser que você não tenha nada a decidir, mas é sempre uma leitura divertida.
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Mas por favor, caros leitores, não acreditem em horóscopo! Imagine o fim de um relacionamento, dois amantes chorosos, tristes pelos cantos, reclamando: “por que não nasci noutro mês? Teria dado certo...”. Os ascendentes que se preparem, vai sobrar pra eles.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Dicionário da Mulher - Verbete: A virada de casaca

Volto a fim de engrossar o coro da superioridade feminina, causa justa e capitaneada pelo comparsa Ulisses, tendo o apoio incondicional deste que vos escreve. Bicho-homem é o rascunho da mujer. Somos tão filhos de primos que destinamos o amor ao que não compensa.

Em nosso raciocínio errado, pensamos que a razão pro cabra mudar de mulher, mas não mudar de time é: Se você é traído pela 1ª opção e continua, és corno,  da categoria dos mansos. Um corno domesticado. Já na 2ª opção, você é fiel... Um chute pra fora do estádio, diria.

Lembrei dos versos de Leonardo, cantador de dores cornais como poucos, que afirma categoricamente: “eu deixaria tudo se você voltasse, meus sonhos, meu passado, minha religião”. Atente para o detalhe que não é mencionada a escolha de representante do esporte paixão nacional. Ele não deixaria.

Já uma mulher é mais decidida quando se trata dos assuntos da vida. Ela abre mão de tudo por um amor. A amante, aquela que te recebe com beijinhos após uma jornada na repartição digna de Hércules, não se prende ao um grupo onde onze machos suados correm atrás da pelota. Ela se prende a você.

De tão bem resolvida sobre o que realmente a fará feliz, vira a casaca. Vejam só, a virada de casaca é a prova de amor que nem o sertanejo goiano ousara. Esquece os gritos da torcida, não faz questão de lembrar daquele gol sagrado que findou o jejum de décadas sem título. É a memória seletiva em ação em prol do romance.

Confesso, não sou capaz de tamanha nobreza. Deixo tal gesto fidalgo, digno de Sancho Pança, para as fêmeas mais leais ao coração. Não é pra este são-paulino teimoso. Dedico este texto para todas as minhas amigas que foram valentes a ponto de trocar de time. E também não posso esquecer das flamenguistas, corintianas, palmeirense, vascaínas, entre outras que, por simpatia com este sofredor, passaram a considerar um pouco mais as três cores vermelho, branco e preto, nesta ordem.

Se o abestado reparar e valorizar tamanho sacrifício, quero valer como a fêmea vai jogar um futebol bonito nas quatro linhas do quarto. Abra o olho ou pegarás uma bola nas costas, chegado. Elas não precisam de três pontos. Elas precisam é de cariño. E desse jeito, elas levam fácil esse campeonato de pontos corridos das relações.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Independência feminina

De todas as revoluções por minuto que a humanidade encenou, este blog destaca a maior delas: a independência feminina.

No grito do Ipiranga da criatura costelar, o mundo girou 90 graus. Um vovozinho de 89 anos provavelmente assume que dificilmente sobreviveria nessa atual selva dos relacionamentos humanos.

De fato é tudo muito novo. O que era omitido pelo machismo de outrora, agora nos é revelado de supetão. Mas como ficamos bestializados, pobres homens, com a eloquência de uma mulher ao explicar a divisão de classes marxista! E como nos sentimos pequenos diante de uma correção ortográfica impecável daquela que nasceu com a retórica na língua.
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A inteligência feminina nos seduz, e claro, amedronta. Mas pobre daquele que tente diminui-la com o mais cafajeste dos preconceitos: “mulher não sabe dirigir”. De bate-pronto ela lhe dirá, com fundamentações teóricas, inclusive, da inutilidade de tal sabedoria, “é necessidade criada”, dirá.
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Não tem jeito macharada, rendam-se e aproveitem o lado magnífico das mulheres 2.0, afinal, elas estão cada vez mais dispostas a fazer feliz quem fizer por merecê-las.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Dicionário da Mulher – Verbete: Banho de chuva

Este escritor de hábitos entre brutamontes e donzelas não tem conhecimento se já foi elaborada alguma pesquisa – dessas típicas de cientistas afeitos em analisar cada cena da vida com base em números – mas, arrisco o palpite: não existe um beijo dado durante um banho de chuva forte que não resulte em paixão arrebatadora.

É clara a relação entre a água fria, misturada com ventos que resulta em comichão no peito. Num toró, se usted é bom reparador de detalhes notará, a natureza se encarrega de acentuar, na base da água, a silhueta da mujer. “Eu me rendo”, é o máximo que o pobre diabo pode reconhecer dada a situação.

As gotas de água, que num daqueles fatos que provam a existência divina e não por acaso caem do céu, servem como cola para os tecidos que realçam os benditos formatos das vergonhas da fêmea. Ô lá de cima, gracias pela vista.

Aqueles que nunca beijaram sentido o sabor da mistura água das nuvens e saliva da amada são desconhecedores do gosto que supera o melhor dos drinques já criado.

O coito sob grande volume líquido entra sem dificuldade como capítulo de destaque no livro “Grandes momentos de nós dois” de qualquer casal. Recomendo que beije na nuca, nessa hora. Apenas recomendo. Se molhe. Larga mão do embaraço.

É na chuva que a paixão nasce. Brota, como um arremedo de uma planta. Vinga.

sábado, 25 de setembro de 2010

Soneto XXIII Sempre mais que antes


A cada nosso encontro um pouco mais se expande,

Mais pra diante lança a sua última barreira,

O que sinto por ti, que é já bastante grande,

Tendo dimensões como coisa passageira.



Qualquer breve gesto que a circunstância mande,

Qualquer sorriso, qualquer simples brincadeira,

É já razão para que ele mais longe ande,

Mais abrangendo do que a forma derradeira.



Se uma hora acho não poder te amar além

Do que já amo, nem mais, nem com mais fervor,

Que o seu limite, essa minha emoção já tem,

Algo acontece, algo aparece em teu favor,



E o meu amor, em expansões constantes,

Mostra que me engano, sendo sempre mais que antes.



*José Danilo Rangel

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Detalhes tão pequenos de nós dois - os cheiros

Há que se amargar a lembrança, vez ou outra, e nem é por querer. Porque o que eu queria mesmo era te esquecer. Mas ando impossibilitado disso.

Há que se amargar a lembrança por tudo que te traz de volta. Ando perdendo minhas horas por aí e nada de você desalojar. Sinto seu cheiro. Seus cheiros. Em todos os lugares.

Seu perfume eu sinto toda vez que entro na loja de perfumes, e peço pra moça borrifar um pouquinho do seu cheiro no meu pulso. Daí eu saio da loja abraçado ao pulso, me olham como doente, e eu sigo de olhos fechados lembrando de cada segundo que tive esse cheiro só pra mim. Eu, ciumento até da luz que a faz mais branca, tendo de me abraçar ao meu pulso porque seu pescoço andava ao alcance de um outro marmanjo que jamais te amaria como eu amei.

Todas as manhãs, quando vou à feira, sinto o cheiro do seu pastel de queijo e do seu caldo de cana domingueiros, e choro copiosa e silenciosamente junto aos bagaços moídos. Preparo uma metáfora fajuta entre os bagaços e meu coração, e falho miseravalmente porque ninguém, nem um poeta delirante de amor, seria capaz de realizar tal metáfora de maneira bem-sucedida.

No restaurante do trabalho, se algum comensal pede suco de cupuaçu, meu olho se enche de lágrimas. Você odiava cupuaçu com todas as suas forças. Você dizia que fedia. E eu me lembro perfeitamente de você dizendo isso, com tanto amargor na voz - "cupuaçu fede, tira isso daqui".

Há que se amargar a lembrança. E sentir cada cheiro seu. Até comprei o mesmo aromatizador de banheiro que você usava, acredita?

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Amores outros e outros modos de amar

Ele mal nasceu e ela também, mal sabem que foram feitos um pro outro, quase isso na verdade, não é que desde sempre fossem peças encaixáveis, porque não nasceram exatamente prontos um para o outro, mas foram assim se concebendo e se construindo, a idéia é que ninguém nasce pronto para nada, muito menos para amar, para ‘eles’ essa é uma lição que se aprende. Mesmo recém-nascidos todos já sabiam que ambos tinham algum tipo de ligação, talvez os dois pequenos não soubessem, mas todo o resto sim. Quando crianças começaram a brincar juntos e sem se darem conta estavam iniciando algo que perduraria por muito tempo de um significado essencial para suas vidas. No pátio central, em torno do qual as casas se dispõe formando um círculo, eles puderam fazer jogos, conversar e se olharem, não era forçado, era natural, estimulado em certa medida, mas ambos não resistiam um ao outro, e em algum momento descobririam que iriam viver juntos e compartilhar muito mais que brincadeiras e conversas. Ainda crianças Ele a chama de “minha futura esposa” e Ela chama a ele de “meu futuro esposo”, talvez não tenham consciência do que isso significa realmente, mas foram ensinados por todos que assim deveriam se referir. Tanto ele como ela não tinham percebido ainda, mas já se conheciam melhor do que a qualquer outra pessoa, ainda eram pequenos, mas já possuíam uma sintonia e uma ligação que ultrapassava muitos níveis. O amor que entre eles já existia antes de seus nascimentos foi costurando desde tenra idade toda uma vida, até que em um dado momento perceberam que haviam estabelecido uma identidade dual, uma noção de pessoa de dois indivíduos, e então se casaram e tiveram filhos. Ele que antes brincava de caçar agora vai fazer a roça e cuidar do alimento para a família, e ela que antes aprendia com a mãe a cuidar dos filhos, estava fazendo cestos para armazenar os peixes que ele pescava.
Bem, o amor indígena não significa casamentos arranjados, fruto de imposição autoritária, mas são experienciados como aprendizados, para depois concretizarem uma espécie de fusão, são amores que se constroem juntos desde muito cedo, são concebidos, o casal aprende um sobre o outro ao mesmo tempo em que vão aprendendo sobre si e, nesse sentido, o ‘eu’ se confunde com o ‘outro’, fazendo do ‘outro’ o eu, subvertendo a matemática, transformando dois em um. O amor deles é fruto de amizades infantis, com sentimentos fraternais que passam com o tempo a ser temperados por “químicas”, por proximidades corporais que não se saciam mais com contatos curtos. E então se dão conta que na verdade eram amigos diferentes, apaixonados sem saberem, com um desejo latente que esperava o momento certo para se manifestar, e que quando se manifesta torna a amizade e a sintonia construída ainda mais potente.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Eu Coleciono Amores Impossíveis


Foi apenas um amor de verão, eu sei. Mas eu ainda vejo o seu rosto quando deito a cabeça no travesseiro (essas vis criaturas que atormentam os corações abandonados). Ainda ouço a sua voz todas as vezes que fechos os olhos, e tenho quase certeza que pude sentir sua respiração no meu pescoço antes de acordar pelo menos umas duas vezes nesses últimos dias. Eu sei que nunca daria certo. Era pra ser apenas mais um dos amores impossíveis que eu colecionei por essa minha vida. Mas mão foi apenas isso. Não consigo explicar, nem tente entender, mas é como se você me abrisse uma porta que eu tinha fechado há muito tempo e já nem lembrava que existia. Ai você vem e escancara tudo de vez, deixa o sol entrar, o vento arejar o ambiente, mas em vez de fazer uma faxina apenas bagunça tudo. A verdade é que eu já tinha desistido disso, sabe. Esse negócio de me apaixonar. De esperar ansiosa por um sms ou ter vontade de fugir no meio da noite, ou largar tudo só para encontrar alguém. Ai você me solta aquela gargalhada, que faz seu rosto ficar todo vermelho, passa a não pela cabeça raspada e me pede uma cerveja, e pronto, está feita a desgraça. Logo eu que nunca acreditei nesse negocio de paixão relâmpago. Uma semana é pouco tempo. Não tem como alguém gosta assim tão rápido. Mas você veio pra fazer tudo cair por terra, mesmo. Quebrar meus paradigmas. Tocar o terror no meu coração. Talvez tenha sido melhor não termos conseguido nos ver naquela noite, porque acho que não conseguiria entrar naquele avião e ir embora. Como deixar para trás o seu olhar carinhoso pela manhã? Você me ensinou que eu ainda sou capaz de amar em uma época em que acreditava que meu destino era de encontros fugazes e sentimentos superficiais. A saudade pode ate passar, e talvez você nem lembre o meu nome em alguns anos, ou nossos momentos se apaguem aos poucos da memória ate serem lembranças distantes. Mas ainda assim, você me fez acreditar ser possível sentir de novo, justo quando pensei que já era a hora de desistir. Eu coleciono amores impossíveis e você foi o maior de todos porque que me fez acreditar que talvez eu possa começar a procurar os alcançáveis.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Saudosa suruba

"Se chove, tenho saudades do sol, se faz calor, tenho saudades da chuva".
José Lins do Rego



“O cabra pode ser valente e chora”, canta a pedra o trovador dessa toada. Faz só metade de hora que arrotei não sentir mais nada pela pequena, e cá estou, achando que nessa vida um sorriso não passará de uma lembrança daquelas que ficaram longe que só. Tento mudar as ideias nessa cabeça.

Passo a mão no meu queixo, até notar a trairagem do acaso: aquele fio de cabelo comprido, presente involuntário esquecido no velcro camuflado de barba por fazer. E ela vai crescer ainda mais.

Para não se sentir largado tal qual o dono, convidará para fazer companhia as olheiras, olhos encharcados, nariz vermelho e boca murcha. É como disse o poeta cantador Fagner e faço questão de repetir “o cabra pode ser valente e chora”.

Tento fugir dessa saudade. Briga perdida. Ela está comigo e não larga. É a nota fiscal de um amor sincero que foi. Ou é. Sim, sim... Ele não morre com palavras esquentadas na frigideira da cólera. É preciso o tempo para matar.

Porém, este piadista de gosto duvidoso resolveu andar a passos vagarosos, só pra ver no que dá. E não dá. Eu a magoei. O que na hora parecia questão de vida ou morte, agora nem cabe na gaveta dos “fuleiros e desimportantes sentimentos”.

Ahora, solo mi riesta terminar essa garrafa de tequila com a Saudade. Essa bêbada desagradável vai dormir comigo nesta noite. E pra completar a putaria bacanesca da minha fracassada biografia amorosa, essa minha amante convidará sua parceira de imoralidade rampeira, a Esperança.

Se a amada se foi, fico aqui, nesse inglório ménage à trois com essas duas vadias.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Haicai do Gosto

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Do transgressivo Ataualpa Pereira

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Filosofia zecapagodiana


“Deixa a vida me levar, vida leva eu” é o estribilho do famoso samba que faz os filósofos-teóricos arrancar os cabelos por considerarem uma apologia ao conformismo e a vida sem planejamento e\ou reflexões.
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Por um lado concordo com tal preocupação, por considerar que realmente existem coisas que estão ao nosso alcance decidir e manipular. Mas por outro, no que se refere às questões do amor, discordo de toda a vã filosofia (ela me permite chamá-la assim) e assumo o conceito romântico que muitos denominariam ingênuo: a vida amorosa tem uma dinâmica própria, com alto nível de livre-arbítrio.
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Esse conceito que denominamos filosofia zecapagodiana, diz que as afirmações do tipo “tenho muito que conquistar profissionalmente, nunca vou me apegar a ninguém” ou ainda “o casamento é uma instituição falida”, merecem um sorriso irônico e um olhar que fala: “ainda vai pagar pela burrice da língua”.
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O planejamento é a comédia do Amor. As metas estipuladas são o stand-up de um sentimento com elevado poder de mudança de planos e não tem orgulho-besta que seja páreo para ele.
Portanto, não marquemos dia e hora para conhecer a tampa da panela, a rapadura do seu queijo e cantando o samba, deixe a vida te levar. Num sarau, na locadora de vídeo, ou no bar sertanejo a coisa inesperadamente acontece. Afinal, o calendário do amor não é solar, e muito menos astral, mas esse já é outro assunto que também vai render samba.

Um Abrir de Janelas

Hoje a Biblioteca abriu suas janelas. O dia amanheceu bem disposto de um vento frio e cálido. Por isso resolveram os coordenadores renunciar ao ar condicionado, e deixar que a brisa do dia novo climatizasse o espaço dos livros e de seus leitores.

As janelas abertas trouxeram do verde das praças os pássaros. Varavam o ar e entravam sutis. Mas depois de certo tempo já estavam fazendo ninho entre Shakespeare e Vinícius de Moraes, e alguns leitores já não mais conseguiam desperceber o eco que o canto dos vários espécimes entoava. Coroando o saguão, o som tinha a amplitude dos sinos de igrejas, mas não faziam doer os ouvidos e nem o juízo. Era um canto alegre e amanhecedor.

E em pouco tempo, os interesses de todos já não eram mais os livros e suas histórias, mas sim os pássaros e seus cantos. Enquanto isso, eu que já havia percebido e me encantado a tempo com aquela invasão mágica, percebi um movimento gracioso de calcanhares entre as primeiras prateleiras em que eu me encontrava.

Atento, encontrei, além de mais pássaros e ninhos, duas pessoas se segurando pelas mãos. Buscavam algo que na hora eu não compreenderia. Na frente ia uma menina, a qual parecia pertencer toda a decisão da busca. E quase pisando nos calcanhares da frente, um menino que parecia tão surpreendido com a caminhada, como os outros com os passarinhos.

O passo apressava-se, e cada prateleira deixada para trás era um adeus que davam ao mundo. E me escondendo no canto dos pássaros, que ecoava cada vez mais forte e tenso como passos a procura de sossego, eu os vi parar.

E pararam na última estante onde só poderiam ser visto por livros e por mim, que os via atrás dos livros de Ornitologia. Pararam e, logo, se encostaram num desejo invejável de paixão impossível. Os lábios se tocaram. E foi aí que eu vi literatura nos lábios alheios. Aquele beijo, entre tantos livros, me encheu de uma poesia única e imensa. Senti Federico Garcia Lorca dentro de mim. Antônio Maria pulsar nas minhas veias apaixonadas. As palavras do Gabriel Garcia Marquez nunca fizeram tanto sentido. Vinícius estava nas minhas mãos. E as letras do Chico Buarque passavam por meus olhos contando com palavras aquela história que eu via na minha frente.

Sim, amigos, eu vi literatura nos lábios alheios. Estarrecido, o beijo foi andando de volta. E eu continuei no cenário daquela ilusão que nunca me pareceu tão verdadeira. Aquele momento tomou-me durante todo o dia. E muita vezes me perguntei se os pássaros conspiraram para que aquele mar de palavras em forma de amor se materializasse a minha frente. Ou se teriam os amantes armado a visita dos pássaros, espalhando alpiste nas estantes, para despistar a atenção da burocracia arcaica que proíbe o beijo entre os livros, e eu apenas como um intruso de aventura alheia, tivesse encontrado literatura onde não haveria de ter. Não sei dizer mais. Não sei pensar muita coisa agora. Não sei quem são. E nem me lembraria a face se os visse de novo.

Só sei que aquele romance visto hoje de manhã não me abandonou a retina. E ao chegar em casa, corri à minha estante e tentei reviver tudo nos livros que tanto guardo. Tentativa infundada. As palavras, sim, eu compreendia melhor. Mas aquela efusão, aquela sensação parece ter virado ninho, e ido embora pela praça com o fechar das janelas.


Por André Cezar